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Opinião

A inelasticidade da fé

Autoridades têm o dever de fiscalizar a atuação de líderes religiosos que se aproveitam da boa vontade dos fieis para construir verdadeiros impérios

Publicado em 10/07/2012, às 17h41

João Victor Guedes*

Costumo dedicar meu tempo para escrever sobre atrocidades cometidas por ditadores como Mahmoud Ahmadinejad, Bashar Al Assad e Viktor Orban, mas meu choque ao tomar conhecimento do mais novo absurdo religioso ocorrido no Brasil foi tão grande que me motivou a voltar minhas atenções ao cenário doméstico.

Por meio de um debate religioso exibido em TV aberta durante a tarde da última quarta-feira (4), assisti ao relato de um suposto parto realizado em uma seguidora da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do Amazonas que, sendo diagnosticada como engravidada pelo diabo, havia dado a luz a três caveiras de brinquedo. Segundo relatos do pastor, sustentado pela mãe da dita-vítima, a causa do incidente teria sido seu afastamento da igreja – época em que teria ficado grávida de trigêmeos e sofrido diversas dores oriundas de possessão demoníaca.

O fato, justificado pelo orador como um trabalho de vodu, teria sido solucionado por um dos líderes da IURD, pastor Sérgio Correia.

Longe de entrar no debate da disputa pela fé, realizado pelos mega-empreendimentos protestantes que vêm conquistando cada vez mais fieis pelo país, o ocorrido merece uma atenção especial não só da sociedade mas, especificamente, de nossas autoridades – teoricamente responsáveis por evitar que oportunistas tomem de assalto nossa população.

É notório que, apesar dos excessos, as religiões representaram e continuam a representar um dos pontos fundamentais para o desenvolvimento de nossos valores sociais. É indiscutível, por exemplo, a influência da moral cristã para a construção de nossa sociedade atual e, nos dias de hoje, a importância dos trabalhos sociais realizados por igrejas de todos os credos em questões como o combate às drogas e à inclusão social.

Não só isso, a liberdade religiosa acaba por ser um direito humano adquirido por toda a população que, podendo se reunir e expressar sua fé, tem na opção de credo um dos pilares fundamentais para sua liberdade de expressão.

No entanto, deve-se lembrar que não existe liberdade sem responsabilidade.

No intuito de garantir a expansão religiosa tanto para consolidar a liberdade de expressão como para ter nas igrejas uma base de sustentação não governamental para ações sociais, garantiu-se uma série de benefícios financeiros – como isenções fiscais e subvenções orçamentárias – que transformaram a religião em um negócio altamente lucrativo.

As vantagens deste empreendimento acabam sendo incomensuráveis uma vez que, além da clientela extremamente fiel – chamada por nós, economistas, de inelástica – e dos benefícios fiscais, as igrejas se transformaram em uma mina de ouro para políticos, contando com um apoio parlamentar grande o suficiente para que pudessem se blindar contra acusações judiciais e investigações policiais.

Com raras exceções, o poder financeiro e político obtido por seus líderes religiosos acabou transformando-os em pessoas a cima da lei. É o caso do líder da IURD Bispo Macedo, cujos escândalos envolvendo seu nome são tão grandes quanto a sua impunidade.

A fim de zelar pelo uso responsável da liberdade de expressão e pela não banalização da fé, cabe às nossas autoridades investigar e oportunamente punir não somente crimes financeiros de grande porte mas, principalmente, delitos cometidos no dia-a-dia, quando sub-líderes religiosos ludibriam cidadãos que, carentes de educação e alternativas, caem na tentação de acreditar no impossível.

*João Victor Guedes é economista, tesoureiro da International Federation of Liberal Youth e especialista do MilleInstituto nium.


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