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Opinião

Vladmir Putin, Pussy Riot e a nova União Soviética

Não bastasse a costumeira truculência da Politsia russa ao enfrentar as manifestações, a justiça agora também parece estar sendo guiada pela nostálgica saudade do modo soviético de controlar a opinião pública

Publicado em 20/08/2012, às 14h12

Manifestantes dão apoio ao grupo Pussy Riot em frente à embaixada russa na Polônia / Foto: Wojtek Radwanski/AFP
Manifestantes dão apoio ao grupo Pussy Riot em frente à embaixada russa na Polônia
Foto: Wojtek Radwanski/AFP
João Victor Guedes*

Costumo frisar, em boa parte de meus artigos sobre as relações internacionais, que um dos pontos mais importantes de se entender o comportamento externo das nações é que, tão logo as oportunidades surjam, tais medidas serão reproduzidas, em gênero, número e força, no âmbito interno. A Rússia, infelizmente, vem sendo um dos maiores exemplos práticos a confirmar esta teoria.

Sua firme defesa a regimes como o do líbio Muammar al-Gaddafi e, mais recentemente, ao sírio Bashar al-Assad davam uma amostra de que, ao concordar com ditaduras externas, um futuro anti-democrático poderia estar reservado para a super potência do oriente caso Vladmir Putin e Dmitry Medvedev permanecessem em seu comando.

Dito e feito. Não bastasse a costumeira truculência da Politsia russa ao enfrentar as manifestações que se tornaram comuns no país face à recente e duvidosa recondução de Putin ao poder, a justiça agora também parece estar sendo guiada pela nostálgica saudade do modo soviético de controlar a opinião pública.

Além do caso clássico do magnata Mikhail Khodorkovsky, preso em 2004 ao se opor radicalmente ao regime vigente, chegou a vez do absurdo totalitarista atingir o meio musical ao impor pena de dois anos de reclusão para as três artistas da banda punk Pussy Riot.

O caso, que chocou o meio artístico rendendo cartas de manifestação de ídolos como Madonna e Paul McCartney, foi motivado por um vídeo clipe gravado pela banda russa em uma igreja ortodoxa, sem a permissão do clero, onde a banda cantava versos, em tom de oração, como “Virgem Maria, Mãe de Deus, nos ajude e coloque Putin pra fora”.



O ato fazia parte de uma campanha na qual a banda pretendia realizar uma série performances públicas e pacíficas para fortalecer a participação feminina na política russa. O problema, no entanto, foi ter iniciado sua trajetória não só na maré contrária ao proto-ditador Vladmir Putin mas também invadindo espaço religioso e ofendendo quem pouco tinha a ver com a história.

Como Mark Adomanis relata em matéria para a revista Forbes, não foi difícil para que o Kremlin utilizasse seu controle sobre os meios de comunicação para jogar boa parte da população contra o grupo musical. Segundo pesquisa realizada logo após o início do processo, apenas 5% da população acreditava que nenhuma punição deveria ser dada ao grupo, enquanto 29% sugeriam trabalhos comunitários, 20% uma alta multa e 19% uma pena de reclusão superior a dois anos.

O caso é que, com o apoio de uma boa parte da opinião pública, não foi difícil para que a justiça russa utilizasse mecanismos soviéticos para dar um recado aqueles que pretendessem realizar manifestações similares. Entre os métodos, constaram a inclusão de acusações que foram mantidas em sigilo até mesmo para as próprias acusadas, uma prisão prematura sem o prévio direito a defesa e a recusa dos juízes em aceitar boa parte das evidências apresentadas em favor das roqueiras.

No final das contas, o fato é que Putin e seu partido estão cada vez mais acostumados ao poder e, apesar de não serem consenso, boa parcela da população parece não se importar com seu crescente autoritarismo. O perigo, para nós, é a forma com que isto será reproduzido na política externa, onde russos buscarão legitimar-se ao garantir um trampolim para ditadores como Ahmadinejad, Hugo Chavez e tantos outros que, na contra-mão da democracia, tendem a criar ainda mais problemas para o avanço da paz e da qualidade de vida global.

*João Victor Guedes é economista e tesoureiro da International Federation of Liberal Youth.




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