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Opinião

Mais governo ou menos impostos?

Faz-se necessário trazer para o Brasil o presente debate entre uma política de investimentos públicos (Obama) e a de não intervencionismo e redução da carga tributária (Romney)

Publicado em 26/10/2012, às 17h40

Obama e Romney durante último debate antes da disputa presidencial / Foto: Saul Loeb/AFP
Obama e Romney durante último debate antes da disputa presidencial
Foto: Saul Loeb/AFP
João Victor Guedes*

Apesar de conhecer a imprensa brasileira, confesso ter ficado surpreso ao abrir o site d’O Globo e me deparar com a manchete “Eleições nos EUA: republicano diz que gravidez após estupro é ‘vontade de Deus’”. Embaixo desta, em fonte menos agressiva, chamadas remetiam para questões como as “gafes de Romney” e o quase divórcio de Obama e sua célebre esposa Michelle.

Tais reportes da política americana já se tornaram comuns não só nos veículos de comunicação ligados às Organizações Globo mas em boa parte dos meios de massa do país. Fala-se muito dos discursos politicamente corretos – ou incorretos – e dos deslizes cometidos em sua maioria por candidatos republicanos, mas pouco se trata do que cada partido representa para a democracia americana – além, é claro, dos impactos que a eleição de cada candidato representaria para o Brasil.

De fato, isso explica o resultado da pesquisa de opinião elaborada a pedido da rede britânica BBC que identificou um índice favorável a Obama de 65% dos brasileiros entrevistados. A justificativa, segundo eles, estaria no pacifismo projetado pelo atual presidente americano, além de sua cor – gerando maior identificação do que a do caucasiano Mitt Romney.

O que ocorre, na verdade, é um cenário relativamente diferente do que é projetado pela imprensa brasileira. Como pode ser observado durante o último debate presidencial, o candidato republicano Mitt Romney defendeu a importância de um relacionamento mais próximo com as nações latino americanas – das quais o Brasil é apontado como um dos líderes mais proeminentes – enquanto o democrata Barack Obama desviou do assunto e manteve seu discurso focado na resolução da crise financeira que afeta majoritariamente os Estados Unidos e a Europa.

Em relação às guerras, a diferença entre ambos residiu em uma típica anedota da política local: enquanto republicanos querem aumentar o poderio militar para não usá-lo, democratas querem reduzi-lo mas colocá-lo em exercício em todas as partes do mundo.

Na prática, Romney deseja aumentar o orçamento militar. Obama, por sua vez, diz não ser necessário, assumindo que o país tem força suficiente para defender Israel e atacar o Irã no momento mais oportuno – plano, aliás, compartilhado por seu rival republicano, o que demonstra que, com um ou com o outro, haverá uma nova guerra no Oriente Médio caso um milagre islâmico não faça com que Ahmadinejad encerre suas pesquisas rumo à produção de armas de destruição em massa.

A discordância, no entanto, acontece quando o tema da discussão é a recuperação da crise financeira. Obama, apesar da seqüência de planos fracassados, acredita que um maior investimento na economia poderia gerar empregos e fazer com os Estados Unidos voltassem ao patamar de paraíso capitalista. O problema, como aponta Romney, é que o democrata deseja fazer isso às custas de uma carga tributária ainda maior. Em sua discordância, o republicano acredita que a economia só irá se recuperar quando o governo parar de intervir, reduzindo impostos e permitindo que os cidadãos desenvolvam seus próprios negócios sem ter de carregar o peso de um governo excessivamente grande.

Caso a imprensa brasileira estivesse mais dedicada a prestar um serviço de educação política e informação à população, tenho a certeza de que trazendo para o Brasil este debate – de investimento público versus redução da carga tributária – acabaria por proporcionar um amadurecimento democrático muito maior do que a discussão atual em torno das gafes de Romney e do divórcio de Obama.

Como esperança é a última que morre, ainda temos uma semana de expectativas para ler a publicação de uma chamada verdadeiramente aprofundada nas primeiras páginas de nossos jornais, revistas e portais jornalísticos. Adaptando a típica conclusão dos discursos políticos americanos, que Deus abençoe os Estados Unidos da América, e a imprensa brasileira.

*João Victor Guedes é economista, especialista do Instituto Millenium e tesoureiro da International Federation of Liberal Youth.

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