Jornal do Commercio
Opinião

A visita de Yoani e as velhas práticas da intolerância política

Todos aqueles que defendem o direito inalienável de pensamento e de expressão devem denunciar essa repressão orquestrada contra a liberdade de crítica

Publicado em 21/02/2013, às 19h30

Cubana foi hostilizada durante sua passagem pelo Brasil / Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP
Cubana foi hostilizada durante sua passagem pelo Brasil
Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP
Felipe Gallindo

“A história primeiro acontece como tragédia, depois se repete como farsa”. – Karl Marx – O 18 Brumário de Luís Bonaparte – 1852.  As recentes manifestações contrárias a presença da filóloga e blogueira Yoani Sánchez no Brasil, seja na sua chegada no Recife e sua participação numa frustada exibição de um documentário na cidade de Feira de Santana na Bahia, não são um exemplo de democracia, mas uma execrável permanência de velhas práticas de intolerância política de uma anacrônica esquerda stalinista !

Os grupos que protestaram contra a dissidente cubana tem sua origem na defesa da herança política do ditador genocida da antiga União Soviética, Joseph Stalin (1879-1953). A partir de seu governo nenhuma forma de oposição foi permitida e milhões de opositores foram presos e exterminados.

Essa intolerância se disseminou pelos partidos comunistas espalhados pelo mundo. O princípio do socialismo não era mais o espírito crítico mas o chamado “culto à personalidade” e a lealdade ao líder supremo, seja ele Stálin, Mao-Tsé-Tung, Fidel Castro, etc.

Após a morte de Stálin em 1953, o PC soviético reaizou o seu XXº Congresso, no qual o secretário-geral do partido Nikita Kruschev denunciou os crimes cometidos durante o período de Stálin. Esse processo de desestalinização foi seguido pelos pc’s obedientes do mundo todo.

No Brasil os reflexos desse processo foram sentidos nos anos 60, quando em fevereiro de 1962, quando um grupo de militantes do PCB rompe com o partido e funda o PC do B. Entre os motivos para o rompimento estava a crítica ao chamado revisionismo do PCB que reproduzia as críticas oficiais do governo soviético ao seu antigo líder Caim Stálin.

Em maio de 1966, foi fundado no Recife o Partido Comunista Revolucionário – PCR. Seus integrantes haviam rompido com o PC do B, devido a aproximação deste com o maioísmo. Também foram classificados de revisionistas. O líder eterno era Stálin, herdeiro do marxismo-leninismo.

Esse breve histórico nos ajuda a entender as reações raivosas e medievais de seus militantes em pleno século XXI. O culto à personalidade foi transferido para Fidel Castro. Se bem que até hoje os militantes do PCR estampam a efígie de Stálin em seus símbolos – uma verdadeira aberração histórica fruto de uma profunda ignorância política.

Então não é de se estranhar que principalmente esses dois partidos protagonizem as mais reacionárias manifestações de intolerância e obscurantismo político. Em Recife um ensandecido militante agarrou os cabelos de Yoani Sanchez e tentou esfregar uma cópia de cédula no seu rosto ! Em Feira de Santana foi impedida a exibição de um documentário sobre a blogueira. Depois de muita discussão ela conseguiu falar por 15 minutos debaixo de vais de militantes do PT e do PC do B.

Tais práticas representam um perigoso atentado ao direito de opinião e de expressão. E para piorar isso é feito em nome de um socialismo falsificado ! O que menos importa é o conteúdo da fala de Yoani Sanchez, mas o seu direito fundamental de se expressar livremente.

Todos aqueles que defendem o direito inalienável de pensamento e de expressão devem denunciar essa repressão orquestrada contra a liberdade de crítica ! Socialistas ou não.

Devemos mostrar para o Brasil que Pernambuco, primeira escala da viagem de Yoani Sanchez, não está representada pela manifestação tacanha e reacionária que ela teve no aeroporto na madrugada de segunda-feira.

Proponho que organizemos um ato público pela liberdade de pensamento e de opinião o quanto antes em Recife, palco de tantas revoltas libertárias !

Lembrem do grande pensador iluminista Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las !”


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