
Uma das prováveis explicações para a epidemia de DDA que atinge Pernambuco e Alagoas é o longo período de estiagem e suas consequências sobre os rebanhos. Só em Pernambuco, de acordo com o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de Pernambuco (Sindileite), 200 mil animais morreram. Muitos foram se decompondo a céu aberto ou, pior, em mananciais que, durante a estiagem, estavam vazios. A matéria orgânica desses bichos pode ter infectado mesmo a água subterrânea. Insetos e aves atraídos pelos bichos mortos também são responsáveis por levar bactérias para outros locais.
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Professora de engenharia química da Universidade Federal de Pernambuco (Laboratório de Controle de Qualidade), Silvana Calado acredita que esse cenário pode ter contribuído para a situação epidêmica que atinge principalmente áreas abastecidas por carros-pipa. “Os bichos mortos podem contaminar a água, assim como esgotos. São causas diferentes, que têm relação com a região. Mas o problema é basicamente falta de vigilância sanitária. Os caminhões têm que ter um laudo informando se a água captada é de açude, se é de água subterrânea, por exemplo. Muitas vezes, a água é entregue como potável e não é. Normalmente, as pessoas acham que toda água entregue em carro-pipa está boa para o consumo. O local da captação pode estar limpo, mas a água pode ser infectada durante a captação e mesmo no caminhão ou ainda nas casas das pessoas.”
A observação de Silvana tem relação com a realidade vista na casa de Aldenir Pereira, 25, e Jailma, 24, que vivem na zona urbana de Águas Belas, também no Sertão de Pernambuco. Há duas semanas, o casal viu o filho mais novo, Rodolfo, com apenas dois meses, morrer após um período de diarreia (outro bebê morreu com sintomas parecidos, no bairro de Campo Grande). Na certidão de óbito da criança, as causas da morte mostram a devastação que a água infectada causou em seu organismo: gastroenterite aguda (inflamação que afeta tanto o estômago quanto o intestino delgado), hepatomegalia (inchaço do fígado, o que pode estar associado à hepatite), pneumonia lobar bilateral, derrame pleural bilateral e septicemia (infecção generalizada).
A morte de Rodolfo ainda não entrou nos dados divulgados até agora pela Secretaria de Saúde do Estado, que informou só contabilizar os números das últimas semanas epidemiológicas no próximo dia 1º. Toda a família ficou doente durante mais de uma semana. Viviane, 4, irmã de Rodolfo, sofreu durante mais de uma semana com diarreia e vômito. “Tomamos muito remédio, chá... mas não fomos para o hospital”, conta Aldenir, que trabalha como pedreiro. No período da seca, recebia água captada pelos carros-pipa vinda de locais como Poço Brejo Velho (em Saloá) e no poço Lagoa do Algodão (em Manari). Agora, usa água encanada vinda da Serra do Comunaty, onde há uma estação de tratamento da Compesa, de acordo com o gerente de Vigilância em Saúde do município, Edilson Paranhos.
BARRENTA - Apesar desse cuidado, a família diz receber, várias vezes, uma água não cristalina. “Às vezes, chega aqui bem barrenta”, conta Aldenir. Infelizmente, o único cuidado que ele e a esposa têm é o de coá-la com um tecido limpo (geralmente panos de pratos), prática comum na região. Dizem que não recebem a visita regular de agentes de saúde. Aparecida Elias, há 9 anos atendendo a população (especialmente a do Morro do Galo, onde vive a família), contesta. Informa que leva hipoclorito e informação para todas as casas dali. “Todo período de chuva acontece isso, muita diarreia em crianças e idosos. Nós, agentes, também temos diarreia, várias vezes. Durante o trabalho, precisamos beber a água de vários locais visitados. Vivemos usando remédio”, conta.
Na residência do pedreiro, a água de beber é simplesmente colocada em uma jarra de barro e coberta com uma tampa de alumínio após passar pelo tecido. A jarra está próxima ao banheiro da família, ligado à cozinha. Só usaram hipoclorito no período da seca, quando recebiam água dos carros-pipa – acreditam que a água encanada vem totalmente livre de bactérias. No momento em que Jailma enchia a jarra para ser fotografada, uma espuma fina se formou sobre a água, desaparecendo depois e deixando ver vários pontos brancos flutuando. Dali, a bebida vai para os copos para ser consumida novamente por todos. Dali, aquela água foi usada para fazer uma mamadeira para o pequeno Rodolfo.