
Morreu na manhã desta segunda-feira (19), o ex-major da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) José Ferreira dos Anjos, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Caxangá, no Recife. Aos 75 anos, ele sofreu uma parada cardíaca durante o atendimento. Os médicos tentaram reanimá-lo, sem sucesso.
O major foi apontado como um dos envolvidos no Escândalo da Mandioca, um desvio de recursos para agricultura oferecidos pelo governo federal no Sertão de Pernambuco, na década de 1980. Ele foi preso por participar da morte do procurador Pedro Jorge Melo e Silva, que investigava o caso. O crime ocorreu em 1982, em, Olinda. Ferreira ficou mais de 12 anos foragido e foi recapturado em 1995. O ex-major estava em liberdade desde 2003, após cumprir 10 anos, sete meses e 13 dias de pena.
Segundo nota, o Major Ferreira chegou na Upa às 8h15 da manhã reclamando de dores no peito. Encaminhado para a sala vermelha, ele sofreu paradas cardíacas e veio a óbito às 9h15 da manhã. O corpo de José Ferreira está no serviço de verificação de óbito, que ainda vai confirmar a causa da morte.
"Na unidade, foi imediatamente encaminhado para sala vermelha, logo após a sua entrada, durante o ECG, apresentou parada cardíaca. A equipe médica fez o procedimento de reanimação por 50 minutos e o paciente não resistiu e veio a óbito. O corpo do paciente foi encaminhado para o SVO (serviço de verificação de óbitos/hospital das clínicas) para determinação a causa da morte”, diz a nota assinada pela diretora clínica da Upa da Caxangá, Audrey Vasconcelos.
O caso
O Escândalo da Mandioca ocorreu entre os anos de 1979 e 1981 na agência do Banco do Brasil de Floresta, resultando no desvio de Cr$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 20 milhões em valores atuais) do Proagro — programa de incentivo agrícola criado pelo governo federal em 1973. O golpe consistia na obtenção de documentos falsos para conseguir créditos agrícolas para o plantio de mandioca, feijão, cebola, melão e melancia em propriedades fictícias, e por agricultores fantasmas. Em seguida, os envolvidos alegavam que a seca destruiu as plantações, para que o Proagro ainda pagasse o seguro, item também previsto no programa governamental.
A fraude contou com a participação de funcionários do Banco do Brasil, incluídos gerentes e fiscais da carteira agrícola, um deputado estadual e um major da Polícia Militar, dentre outros envolvidos. Segundo as investigações, o dinheiro era utilizado na compra de carros, casas, terrenos, fazendas, viagens, entre outros. O Ministério Público Federal denunciou, à época, 24 pessoas pelos crimes de peculato, corrupção ativa e corrupção passiva, entre elas o então Major Ferreira, condenado pelo assassinato do procurador da República Pedro Jorge de Melo, que ofereceu as denúncias e cobrou apuração do caso.
Leia Também
Em 2017, o caso foi transformado num documentário. O curta-metragem “Pedro Jorge: uma vida pela justiça” foi produzido pela Procuradoria Regional da República da 5ª Região, no Recife, em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
“O pistoleiro Elias Nunes Nogueira disparou três tiros contra o procurador, a mando do ex-major José Ferreira dos Anjos, um dos beneficiados pelo esquema de corrupção que estava sendo investigado por Pedro Jorge. Ele já vinha sofrendo ameaças dos denunciados e pressões para abandonar o caso, mas decidiu seguir em frente com seu trabalho e acabou morto”, lembra o Ministério Público Federal no lançamento.